Karatテェ Shotokan

Karatテェ Shotokan

AS ARTES MARCIAIS NO JAPテグ


Sumário:


CAPÍTULOS DESTAQUES
3 - AS ARTES MARCIAIS NO JAPÃO
3.1 - BUJUTSU E BUDO Jutsu Bugei Do Michi
A percepção de honshin pode ser corrompida O dナ綱ナ é um microcosmos, e um modelo para a sociedade    

3.2 - A INFLUÊNCIA DO BUDISMO ZEN NAS ARTES MARCIAIS JAPONESAS

Boddhi Dharma Cha no yu    
3.3 - SAUDAÇÃO E ATITUDE MARCIAL Reigisaho

Saudação ao Mestre Interno

Saudação à tradição passiva Saudação à tradição activa
Plano energético Plano simbólico    
3.4 - OS TRÊS ASPECTOS A CONSIDERAR NA ATRIBUIÇÃO DAS GRADUAÇÕES Shin ghi tai      
3.5 - OS NÍVEIS DE ESTRATÉGIA E DE PERCEPÇÃO Heiho heiho wa heiho desu GO-NO-SEN Ju-no-sen
Sen - no-sen      
3.6 - O ESTADO DE NÃO MENTE mushin Intuição e acção são uma só coisa MUSHOTOKU  
3.7 - AS TRÊS ETAPAS DE PROGRESSÃO DE UM KATA Shu Ha Ri  
3.8 - AS TRÊS ETAPAS DE EVOLUÇÃO Kohai Sempai Sensei  

 


3 - AS ARTES MARCIAIS NO JAPÃO

As artes marciais japonesas, não obstante a sua menor antiguidade em relação à China e Índia, têm uma idade apreciável. Terão pelo menos uma existência de 2000 anos.

O relato marcial japonês mais antigo data do ano de 24 a. C., narrando um combate histórico entre dois guerreiros: Nomi-No-Sukume e Tahema-No-Kehama, tendo este sido morto por aquele. São os mais antigos lutadores conhecidos de Sumo da história do Japão. Segundo alguns autores, este já terá sido um combate de ju  jutsu, pois os combatentes "parece terem praticado um tipo de luta onde todos os  golpes eram permitidos" [1]. Este facto, o de o "vencedor ter utilizado golpes eficazes e ter provocado fracturas mortais, foi considerado" como "um combate com características mais de Ju-Jutsu do que de luta" [2].


3.1 - Bujutsu e Budナ

Nas artes da guerra o ser humano começou por usar as suas armas naturais, o próprio corpo. Quando os antepassados do homo sapiens se tornaram erectos a primeira arma que usaram foi o pau. Foi o seu companheiro natural ao longo de todo o processo de hominização, nas caminhadas, nas caçadas, na protecção da sua vida, da sua família, do seu território. Terá sido há cerca de 3 milhões de anos que o homo habilis começou a caçar e para tal a utilizar paus.

Verifica-se que a importância dada ao pau foi tal que perdura no inconsciente colectivo dos povos como símbolo de poder: o ceptro do rei, dos faraós aos reis dos nossos dias; o bastão do marechal; o pingalim do oficial; a batuta do maestro; a vara do mágico; o bastão do druida; o bastão de Moisés e de todos os patriarcas, inclusive o do bispo católico; o bastão do bastonário de todas as ordens (o próprio título por referência a bastão); outros exemplos infindáveis poderiam ser dados da associação de honras ao uso do pau.

Em relação às restantes armas, só há cerca de 50 000 anos é que a humanidade começou a usar o arco, e a Idade do Bronze, com as suas armas metálicas tem 5 000 anos. Pelo meio foram criadas muitas armas em pedra, facas, lanças, machados e outras…

No Japão em concreto, entre os mais de 50 bugei [3] que existiam, um samurai deveria treinar-se pelo menos nos seguintes:

01 - Bakutô kenjutsu (esgrima com sabre em madeira)

02 - Iai-jutsu (antecipação ao sabre)

03 - Heiho (estratégia)

04 - Naginata (alabarda com uma lâmina curta)

05 - Boojutsu (esgrima com dois sabres, um longo e um curto)

06 - Juttejutsu (barra de ferro com aldraba)

07 - Kôdachijutsu (esgrima com sabre curto)

08 - Tessenjutsu (leque de metal ou madeira)

09 - Kusarigamajutsu (foicinho com corrente)

10 - Sôjutsu (lança com a lâmina direita)

11 - Bootojutsu (sabre muito longo)

12 - Yawara (luta corpo a corpo)

13 - Kenbujutsu (esgrima de combate real)

14 - Yoroikumi jutsu (combate com armadura)

15 - Shuriken jutsu  (lançamento de armas especais).

16 - Yoroidoshi jutsu (a arte de trespassar uma armadura)

17 - Battô jutsu (antecipação com golpe)

18 - Prática das artes:

               a) Sha no yu (cerimónia do chá)

               b) Shakuhachi (flauta)

               c) Shimai (dança Nô)

               d) Yokyoku (canto Nô)

               e) Ikebana (arte floral)

Muito mais recentemente e no que respeita em concreto ao Budo, a ordem pela qual os vários caminho foram surgindo é a seguinte:

1882 - Judo

1903 - Kendo

1905 - Kyudo

1935 - Karaté-do

1942 - Aikido

A palavra bu é habitualmente traduzida por marcial ou guerra, no que resulta que bujutsu designe as artes da guerra. O dicionário japonês Setsumonkij, explica que o caracter bu significa parar a violência e restaurar a paz.

Jutsu significa arte ou habilidade, mas também pode ser traduzida por magia ou feitiçaria. A ideia é que por vezes, em consequência de um extremo estudo, prática, a arte é levada a um ponto de perfeição, que parece ser sobrenatural. O conceito que está subjacente ao jutsu não é apenas ser bom na arte, mas ser tão bom que parece magia. O sentido do termo é que o treino seja de tal modo continuado, disciplinado, severo, que se ganhe tal proficiência que certas habilidades pareçam mágicas.

No termo antigo, bugei, o caracter gei refere-se a perícia ou métodos básicos. Gei significa cultivar deliberadamente algo, ou o resultado dessa cultivação. Noutras palavras é a perícia de conseguir cultivar algo individual com o seu próprio talento. Jutsu é uma elevação de gei.

Do refere-se a dois princípios filosóficos. Kano escolheu chamar à sua arte Judo por oposição a Ju-Jutsu, tentando também indicar que pretendia ensinar princípios, mais do que habilidades ou proezas pessoais. A grande habilidade de Kano era aprender muito em muito pouco tempo. Ele conseguia fazê-lo porque se concentrava nos princípios das artes que estudou, para além da grande variedade de proezas, habilidades, ataques e defesas aí presentes.

Depois de Kano, o budナ foi adquirindo, devagar e ligeiramente, um outro sentido. As várias formas de budナ emergiram partir do treino austero das velhas artes, mas foram-se despindo de muitas técnicas de combate e das suas aplicações. Nestas novas formas, os velhos métodos mortais são considerados desnecessários para a evolução do ser humano.

Do é também uma filosofia de vida. A tradução de do como caminho de vida é frequente. Assim Kano quis enfatizar os princípios de vida que se descobrem no estudo das artes marciais. Do assenta numa concepção de ordem no Universo. O seguir o do é procurar uma conformidade com o Universo, ou, como ensina Tokitsu, "c'était se mettre en harmonie avec cet ordre universel" [4]

Além disso, o carácter do lê-se, em velho japonês, michi. Esta é outra razão para que Kano tenha usado do em substituição de jutsu.. De acordo com o pensamento japonês tudo tem o seu michi a seguir [5]. Todas as coisas devem desenvolver-se no seu próprio contexto. Para as coisas se desenvolverem em harmonia devem seguir o seu próprio michi. É o michi de um cão ladrar e cheirar tudo. É o michi da árvore dar sombra no verão e cobrir o chão de folha no Outono. E é o michi da água ser água. Todas as coisas na natureza seguem o seu próprio caminho. Com excepção dos seres humanos que escolhem coisas que não são. Os homens e as mulheres têm honshin, "coração", "sensibilidades", "consciência." O ser humano deve descobrir através do seu honshin o seu michi e este é também "le sentier, identifié quelquefois à la voie (do) Qui méne l'homme vers l'accomplissement et la réalisations du Soi." [6] Se alguém segue um caminho errado e olha para o mundo procurando ver o real, percebe que substituiu a substância pela sombra. Esse ser humano sente-se perdido e confundido, tanto mais quanto mais distante estiver da sua própria natureza. Separado desta, perde a fé em si próprio, e torna-se insatisfeito e infeliz.

Seguir michi para um ser humano é seguir honshin. Infelizmente a nossa percepção de honshin pode ser corrompida no processo. A realidade da vida e da morte nas batalhas e nas artes de guerra dão um espelho claro para o espírito, que permite restaurar a percepção adequada de honshin e orientá-lo de modo a seguir michi.

Nunca nos conheceremos realmente enquanto não estivermos face a face com a nossa própria morte. Isto, em termos reais, numa guerra, ou em termos simbólicos, - randori e shiai - pois o "combat de budô n'est jamais virtuel." [7] O acto do

"combat conduit à une introspection et à une remise en cause Qui poussent vers une réorganisation de la personnalité visant à devenir plus perspicace, capable de ne pas se laisser perturber, d'agir spontanément et justement, de déplouer ses capacités maximum. Le processus de cette réorganisation est l'entraînement Qui comporte une tension vers l'auto-formation constitutive du budô." [8]

A prática de artes marciais tem uma interacção social em que o dナ綱ナ é um microcosmos, e um modelo para a sociedade. O que se aprende no dナ綱ナ é directamente aplicável na vida. Vemos as coisas com mais clareza no dナ綱ナ por causa da clareza que as situações de combate nos dão. Desta forma através da pratica do Judo é possível aprender acerca da vida, do conflito, da interacção, e da sociedade em geral, porque nos ajuda a compreender os outros e a nós próprios. A prática no dナ綱ナ colocando-nos em frente da adversidade, de modo controlado e seguro, desenvolve a nossa determinação e a capacidade de resposta frente a uma crise.


 

3.2 - A influência do Budismo Zen nas artes marciais japonesas

Vindo da Índia para a China no séc. V, o Zen parece Ter chegado ao Japão no séc. VI. Boddhi Dharma, o 28.º patriarca budista levou para a China o Yoga. O Yoga contém a meditação como uma das suas técnicas [9]. Em sânscrito tal técnica diz-se dhyána. Por um fenómeno linguístico, os hindus não lêem a última letra das palavras, sobretudo quando esta é um "a". A palavra que designa meditação chegou à China como dhyán. Onde foi incorporada como chan. Mais tarde, ao ser incorporada no Japão passou a ser pronunciada Zen.

No fim do séc. XII o Zen começa a influenciar os buke [10], como uma religião da vontade instintiva purificada.. Mas só no séc. XII, na era Kamakura, nome da capital do Japão nesse tempo, é que se tornou influente. Nesta mesma época, por influencia dos monges Zen, os nobres e os buke adoptaram a cerimónia do chá, cha no yu. O zen e a cerimónia do chá davam aos nobres um estado de espírito propício à educação, à modéstia, à serenidade, à mestria de si próprio, sem orgulho, nem arrogância. Esta ideia está contida no conceito de wabi, melancolia e gosto por aquilo que é simples. Conceito que é caro aos japoneses.

A procura que o Zen faz do estado de não mente, assim como a renuncia à vida, tal como as suas explicações simples das coisas da vida, levou os guerreiros a adoptá-lo como filosofia orientadora. As artes marciais, se praticadas em toda a sua pureza, são consideradas Zen em movimento.

 

3.3 - Saudação e atitude marcial

No Budナ o reigisaho [11] tem uma importância fundamental. 

A saudação é uma introdução à aula que permitirá ao praticante afastar a mente das preocupações e stress quotidianos, permitindo-lhe a concentração que a prática das artes marciais exige. Evitando também a degeneração de comportamentos agressivos, impedindo a falta de respeito pelo parceiro de treino. Porque, no dizer de TORRES CASADÓ [12], a saudação expressa,

respeto, admiración, gratitud y reconocimiento al símbolo, a la idea, al professor, al compañero y al adversario. Es un sutil reulador de las inevitables conductas agresivas que conforman cada una de las disciplinas.

Em todas as artes marciais tradicionais, podemos encontrar o reigisaho, concretizado de modo diferente de arte para arte, mas mantendo, quase sempre, o mesmo espírito e função.

No Budナ a etiqueta deve ser uma constante da vida. Os gestos devem ser belos, precisos, lentos, mesmo os mais quotidianos, como sentar, ou levantar, caminhar, ou dar algo a alguém. Pois "chaque geste devait être executé de maniére à ce qu'il permette, dans la fraction de seconde qui suit une attaque-surprise, de recourir à la riposte efficace.» [13]

Como ensina o saudoso Jazarin [14], os verdadeiros Mestres saúdam "profundamente, casi de forma majestuosa, porque toda su experiência, su conocimiento, su humildad están presentes en esse saludo."

Num dナ綱ナ podem encontrar-se vários tipos de saudação.

A prática marcial começa com uma saudação interna, a saudação a si mesmo, dirigida ao íntimo de cada um, com a qual se pretende alcançar o Mestre Interno [15], fonte primordial do auto-aperfeiçoamento e de auto-superação.

Ao entrar no local de prática há uma primeira saudação exterior, aquela que é feita ao dナ綱ナ, com a qual se demonstra respeito ao lugar da prática.

Com o início da aula todos os praticantes executam, ao mesmo tempo, uma saudação à tradição passiva. Esta saudação feita em direcção ao kamiza, «local dos deuses», onde simbolicamente a tradição passiva se condensa, é o kamiza ni rei, ou shomen ni rei. Representa o respeito pelos mestres que nos antecederam, pela cadeia de transmissão do saber. Exprime o respeito pelas gerações anteriores, que nos legaram a arte com sofrimento e por vezes com o custo da própria vida. É não só uma humilde e sincera homenagem à tradição passiva, mas também uma forma de inspiração no seu exemplo.

Segue-se a saudação à tradição activa - concretizada de modo muito diferente de arte para arte.

A maneira de efectuar a saudação tem vários entendimentos: um marcial, outro energético e outro simbólico.

Ilustremos o que se afirma com  saudação praticada em seiza. A primeira mão a ser colocada no solo em frente do corpo é a mão esquerda. No plano marcial, em caso de ataque do adversário, a mão direita pode desembainhar uma arma ou executar um movimento defensivo, se não houver armas. Se baixasse as duas mãos ao mesmo tempo isso não aconteceria.

No plano energético, a mão esquerda está associada à energia negativa (ura) e a mão direita à energia positiva (omote). Aquela tem um efeito destrutivo, esta tem um efeito construtivo.

O descer da mão esquerda à terra é um gesto simbólico da recusa de fazer mal, em relação àquele que é saudado. Em simultâneo, o contacto da mão com o chão neutraliza a potencialidade energética desta mão destruidora.

Com a colocação das duas mãos no chão, estas formam um triângulo equilátero.

No plano marcial a finalidade é a de evitar um ferimento grave no nariz. Em caso de ataque à cabeça por parte de um adversário, o nariz está protegido e não será esmagado no chão.

A nível energético permite a circulação de energia em circuito fechado, possibilitando a concentração mental.

Este gesto simboliza a reunião de três lados: o homem, o céu e a terra. Também simboliza a junção entre a tradição passiva e a tradição activa, em que o Mestre desempenha um papel fundamental: é ele que transmite o conhecimento que já anteriormente lhe tinha sido transmitido. É um circuito de transmissão do conhecimento.

O triângulo simboliza também a capacidade de defender, assim como também a de atacar.

 


 

3.4 - OS TRÊS ASPECTOS A CONSIDERAR NA ATRIBUIÇÃO DAS GRADUAÇÕES: SHIN/GHI/TAI 

SHIN GHI TAI é o conjunto de espírito, carácter (shin); de técnica (ghi); e dos elementos corporais (tai), como a posição, o movimento, a energia física. Cada um destes elementos tem uma intensidade diferente em cada uma das graduações. Uma graduação dan deverá ser sempre o conjunto de shin ghi tai.

A idade, os anos de prática, o sexo, as possibilidades de cada um, a própria graduação devem determinar qual o ou os elementos mais importantes. Para um jovem shodan, admitir-se-á que seja predominante o tai acompanhado de um razoável desempenho técnico ghi. Para outras graduações superiores, em que a idade é avançada, o shin deve ser predominante. Shin ghi tai, harmonizam-se e fundem-se. O budoka atinge o estado de mushin. É possível a reacção espontânea face a não importa que ataque, com eficácia absoluta do corpo e da técnica. Algo reagiu. Algo lutou e venceu. Algo que não a mente de vigília.


3.5 - os níveis de estratégia e de percepção: go-no-sen ju-no-sen sen-no-sen

HEIHO

Habitualmente diz-se que estratégia é heiho. Em rigor, heiho, numa tradução literal significa "as leis da guerra". Nas artes marciais refere-se às leis naturais que regulam o confronto, a violência. Ho significa lei, regra, lei natural ou princípio que governa a acção. Isto significa que estas leis ou princípios naturais existem para além da percepção individual. Significa que se existem podem ser reveladas por um cuidadoso estudo. Neste caso heiho, num sentido marcial, não significa estratégia no sentido do estudo da forma de vencer o adversário. Será mais a compreensão das características e do comportamento dos guerreiros em dada situação. Com esta compreensão pode determinar-se a acção apropriada mesmo em situações que não são familiares. Heiho é heiho, ou como o dizem os japoneses heiho wa heiho desu. Ora se heiho é o princípio ou a lei natural que governa a acção humana no confronto, também a governa em sociedade. Porque o elemento central em ambas é o indivíduo. Neste sentido o estudioso de heiho (e artes marciais) é também um estudioso da natureza humana e do comportamento social. Assim como de si próprio e do mundo à sua volta. Ou seja, as artes marciais, no seu velho sentido são muito mais do que técnicas de combate.

Com esta compreensão estratégica, os praticantes das artes marciais procuram desenvolver várias tácticas de combate, correspondentes a diferentes níveis de percepção.

 

GO-NO-SEN/JU-NO-SEN/SEN-NO-SEN

 

Go-no-sen - Também machi-no-sen, significa iniciativa na defesa, ou iniciativa contra a iniciativa do que ataca. Assim que o adversário toma a iniciativa, o tori defende-se seja bloqueando seja executando tai sabaki, antes de responder. Esta forma de iniciativa já implica que o budoka tenha perfeita opercepção do ataque do uke e que aquele possa recuperar a iniciativa no decorrer do ataque. É a reacção sobre a pressão do ataque do uke.

Ju-no-sen - Iniciativa mútua. Esta forma de iniciativa implica atacar assim que o adversário iniciou o seu ataque, de modo a que ele seja atacado. Implica impor um ritmo novo, que pode ser lento, ou rápido, forte ou suave.

Sen-no-sen - Também ato-no-sen ou sen sen-no-sen, consiste precisamente em sentir a vontade de ataque do adversário e antecipar-se, atacando antes que este concretize a sua intenção. Observado do exterior parecerá que este tomou a iniciativa do ataque. A este nível há que distinguir três fases na percepção:

  • Sakki - a capacidade de sentir a onda de ataque no instante em que ela  se forma;
  • Sen-no-sen, é a decisão de antecipação;
  • Senken - início da execução da decisão de antecipação.

Estas três fases decorrem em menos de um segundo. A chave este nível de percepção é Sakki.

Visto de outro lado pode dizer-se que na mente do budoka, na primeira fase, a defesa e o ataque ainda se separam e representam 1 e 2. No segundo nível, defesa e ataque já são só uma única e mesma coisa. Na terceira fase, é a iniciativa total. Visto do exterior, poderá dizer-se que a testemunha comum diria que na primeira fase o uke tinha atacado e o tori defendido. Na Segunda fase, a testemunha diria que lhe pareceu que se atacaram ao mesmo tempo. Na terceira fase a testemunha tomaria o agredido por agressor.


 

3.6 - O estado de não mente (mushin ou munen)

Mushin - Espírito original, espírito puro, espírito livre. Expressão usada para exprimir uma mente livre do ego e das suas afirmações. É oposta à de ushin, o pensamento superficial e fixo. A procura da vacuidade mental ou da libertação de todo o pensamento está no centro da procura de todas as artes marciais. Só um espírito livre e vazio pode estar instantaneamente receptivo a todo o movimento e intenção do adversário.

Como acima foi referido o treino deve ser, sempre, shin ghi tai. O corpo é treinado intensa e duramente. A técnica é aperfeiçoada até ao infinito, sem nunca o budoka parar de procurar aperfeiçoá-la mais. Mas no momento decisivo é o espírito que finalmente decide. É a mente em mushin que determina a reacção adequada. O espírito intervém, porque o pensamento não pode estar presente. Se o pensamento procura a resposta, não há tempo para reagir.

Um dado interessante do Budナ é a certeza de que intuição e acção são uma só coisa. E quando intuição e acção não se destinguem, os três elementos, shin ghi tai, passam a ser, também eles um só.

Com o conceito de Do a acompanhar as artes de guerra, a ênfase passou para as atitudes internas e o autoconhecimento. A execução das técnicas, o seu âmbito prático, tem como objectivo a exploração interna e o treino da habilidade mental.

O objectivo o treino é alcançar mushin, e este só será alcançado com a renuncia ao ego, com a renúncia aos frutos da acção, ou seja, MUSHOTOKU. Uma mente preocupada em alcançar algo, não consegue libertar-se do pensamento e não consegue mushin.


3.7 - As três etapas de progressão de um kata: shu hA ri

 

Shu ha ri são as três etapas de progressão tradicional nas artes marciais de acordo com a via de aprendizagem clássica (oshie [16]), concebidas também como caminho interno do praticante.

Shu Ha Ri é, grosso modo, imitar, divergir, separar.

SHU

É um antigo termo para designar a aprendizagem do kata. "Le premier théoricien du kata étant Zeami (1363-1443) dans le théâtre NÔ" [17].

A aprendizagem de um kata implica, numa primeira fase um simples exercício de observação. E a partir dessa observação gestual, o praticante reprodu-la e assimila-a. É a assimilação da forma exterior do kata.

Esta etapa tem o nome de SHU. Esta palavra tem a sua origem em mamaru, que significa proteger, observar uma regra [18]. Na fase SHU pretende-se proteger a forma para a conservar. É a etapa onde se assimila fisicamente as bases fundamentais da arte. É a parte em que se estuda e memoriza a gestualidade da forma. A reprodução do modelo limita-se a uma reprodução física. É o estudo elementar, aquilo a que se designa por ushin [19], mas que exprime a primeira preocupação do praticante, aquela de reproduzir o que ele vê em primeiro tempo. Ainda é a mente que faz as técnicas. O discípulo observa a arte do mestre, reproduzindo-a. Procura a reprodução que convém à sua própria constituição física. É o estudo pela imitação, decalcada do modelo exterior.

Esta primeira fase da aprendizagem kata é a fase cognitiva. A compreensão do objectivo proposto e as componentes da tarefa motora constituem as principais preocupações do budoka. Este terá que analisar a tarefa, decidir o que fazer, o que não fazer, quando fazer, seleccionar as informações mais relevantes. É o estado "de l'éleve qui a tout à apprendre" [20]

Característico desta fase é a quantidade enorme de erros que são cometidos no desempenho. Para além disso o praticante tem dificuldade em perceber o que está mal e em discernir o que corrigir afim de melhorar o desempenho. A ajuda do professor é indispensável devendo fornecer-lhe a informação mais relevante para o desempenho da tarefa. O feedback, ou seja a informação de retorno suplementar é importante nesta fase.

O budoka sente o seu progresso e o domínio cada vez maior da técnica, tal como lhe foi demonstrada e tal como a imita. Visto de outra maneira, é também a fase em que o ego se exalta pelos evidentes progressos.

Este é o estádio mais comum de compreensão do kata, mesmo para muitos budokas com uma graduação elevada.

HA

HA significa destruição [21]. É o princípio da interiorização do estudo por uma destruição do modelo imitado. É uma busca do que está para lá do modelo. É uma etapa muito rica do kata. Embora consista na destruição do kata. É a etapa do estudo profundo de um kata, junto de um mestre habilitado a ensiná-lo, procurando a descoberta de todos os seus segredos. Exteriormente poderá não haver diferença visível da execução técnica, mas o trabalho mental é intenso, implica uma desconexão entre o movimento e a mente. É a fase do estudo e da compreensão da utilidade de cada gesto. Estes têm a sua significação cognitiva e são sentidos fisicamente. Há hesitação no progresso do estudo. Pois a sensação física da execução de uma técnica perfeita e eficaz deve ser acompanhada de uma necessária compreensão intelectual. Sente-se o que se faz, mas sabe-se porque se faz e pode explicar-se a razão do que se faz. Este estado é de "création intérieure, stade ultime sur le plan technique" [22].

O número de erros tende a diminuir. O que revela que o budoka se encontra neste nível. Este passa a ser capaz de determinar e corrigir os erros do seu desempenho. Os movimentos deixam de ser grosseiros e tornam-se mais harmoniosos e menos bruscos.

RI

RI corresponde ao estado de mushin [23] , o espírito sem limites e significa afastar-se, suprimir. Neste estádio ocorre a execução técnica no momento certo. A técnica flui sem reflexão prévia. Nesta fase o budoka esquece o kata porque se "exécute un acte conforme au kata, on est le kata, on fait le kata." [24]

Nesta fase, nos aspectos psicomotores, a independência da prestação motora relativamente à necessidade de atenção consciente sobre a execução da tarefa caracteriza a terceira e última fase da aprendizagem - a fase autónoma.

O sujeito domina e automatizou o movimento, então liberta-se para se centrar em outros aspectos relevantes, como seja a crescente capacidade de antecipar a resposta em função de determinado estímulo. A baixa frequência de erros é evidente e manifesta-se no elevado nível da resposta. É possível a reacção espontânea face a não importa que ataque, com eficácia absoluta do corpo e da técnica. Algo reagiu. Algo lutou e venceu. Algo que não a mente de vigília. Visto de outro modo é a fase em que "l'éleve se sépare de son maître pour enseigner ses propres conceptions et devenir lui-même un maître" [25].

 

3.8 - As três etapas de evolução kohai/sempai/sensei

 

Kohai - É o novo aluno, por oposição ao antigo (sempai), numa escola de artes marciais tradicionais. Deverá, para progredir, ultrapassar os primeiros graus. Tem diversos deveres para com os anciãos (expressão de respeito e de humildade), assim como certas tarefas no dナ綱ナ, entregues aos novatos.

Sempai - Ancião. É o mais graduado dos alunos de um dナ綱ナ. Por vezes pode ele ser o responsável pelo dナ綱ナ, ou pelo curso.

Sensei – É o que nasceu antes. É o mestre, é o professor. Poderá ser aquele que apenas transmite a técnica, ou poderá ser aquele que indica a luz.

As graduações no Budナ distribuem-se pelas seguintes categorias:

Graduações do nível dos alunos (mudansha)

1.º Grupo (8.º ou 6.º a 4.º kyu):

Shiro obi - 8.º kyu (Hachikyu)

Shiro obi - 7.º kyu (Shichikyu)

Shiro obi - 6.º kyu (Rokukyu)

Ki iro obi - 5.º kyu (Gokyu)

Daidai iro obi- 4.º kyu (Shikyu)

 

2.º Grupo (3.º a 1.º kyu):

Midori obi - 3.º kyu (Sankyu)

Aori obi- 2.º kyu (Nikyu)

Cha iro obi - 1.º kyu (Shikyu)

 

Graduações ao nível dos ESPECIALISTAS (yudansha)

 

 

1)

-

Shodan

-

estudante (sho mokuroku)

 

2)

-

Nidan

-

discípulo (jo mokuroku)

 

3)

-

Sandan

-

discípulo confirmado (hon mokuroku)

título de doshi

4)

-

Yodan

-

Especialista (hon mokuroku)

título de doshi

 

Graduações ao nível dos mestres (kodansha)

 

Graus do conhecimento: KOKORO

 

5)

-

Godan 

-

título de renshi

6)

-

Rokudan

 

título de renshi

 

Graduações ao nível dos mestres (kodansha)

 

Graus da maturidade: IKO KOKORO; Títulos da mestria

 

7)

-

Shichidan

-

Título de kyoshi

8)

-

Hachidam

-

Título de kyoshi

9)

-

Kudan

-

Título de hanshi

10)

-

judan

-

Título de hanshi

As cores dos cintos são:

Kuro obi

-

Negro

Shima obi

-

Branco e vermelho

Aka obi

-

Vermelho


 

É certo também, que para além das graduações, há discípulos internos - uchideshi e discípulos externos - soto deshi. Estes últimos geralmente assumem a liderança da escolas, mas quem detém os conhecimentos profundos são os kage shihan, os mestres da sombra. O conhecimento não é transmitido a todos os praticantes. E este divide-se em exotérico, mesotérico e esotérico.

   Os títulos atribuídos têm o seu significado:

  • Doshi é um artista marcial que já demonstrou estar dedicado ao ryu que pratica. Tem um certo nível técnico. É um discípulo confirmado ou um especialista na arte a que se dedica. Então é autorizado a ensinar, a transmitir o conhecimento.

  • Renshi é um professor. Mas com um nível de excelência técnica. É um homem sábio.

  • Kyoshi, também um professor. Neste nível o budoka sabe utilizar as fraquezas mentais dos adversários.

  • Hanshi. Nível de excelência técnica sem fraquezas mentais. É o homem da transmissão. Do conhecimento, dos aspectos filosóficos e esotéricos da arte.

  • Shihan. É o grande mestre. Geralmente mestres fundadores de escolas.

Em toda esta progressão o budoka deverá desenvolver uma verdadeira invencibilidade em combate. E esta invencibilidade resulta de algo muito para além da técnica. Resulta de uma certa forma de estado de espírito. Resulta da junção de três características:

Seishin - espírito, mental, alma, energia espiritual. É a energia que permite a um budoka vencer. É a energia que lhe permite nada temer e lutar.

Heijishin - Atitude mental do guerreiro, forte, imperturbável, confiante face ao ataque.

Munen muso - O estado de espírito de não pensamento, livre e todas as inibições, duma independência total. Unidade na acção e na reacção.

O Mestre que desenvolve estas características é um tatsujin, ou um homem completo. Tem condições para vir a ser um Meijin, um mestre de excepção, um homem mais do que humano. Alguém que já não é humano. Dito de outro modo, alguém que já transcendeu a condição humana.

Contudo, se seishin caracteriza um mestre, o budoka deve sempre manter ao longo da sua progressão shoshin, ou seja o espírito do principiante. Pois este é um estado de espírito de abertura a partir do qual tudo ainda é possível . E de novo o princípio se manifesta no fim e este sempre está contido no princípio. E o círculo mais uma vez se fecha.

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